Dívida

Juros da dívida rural disparam 191% em quatro anos, aponta estudo do Cepea

Inadimplência no crédito rural atingiu 9,69% em agosto de 2026, recorde da série histórica do Banco Central; avanço das operações a taxas de mercado e queda da rentabilidade pressionam produtores.

O custo anual dos juros da dívida rural no Brasil aumentou 191% entre 2021 e 2025, passando de R$ 34 bilhões para R$ 99 bilhões, em valores corrigidos pela inflação. No mesmo período, a taxa média das novas operações de crédito rural contratadas por pessoas físicas subiu de 6,3% para 12,2% ao ano. Os dados fazem parte de um estudo do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP.

A pesquisa também revela um avanço expressivo da inadimplência no setor. Em agosto de 2026, 9,69% das operações de crédito rural apresentavam parcelas vencidas há mais de 90 dias. Em dezembro de 2022, esse índice era de 0,77%. O percentual representa o maior patamar da série histórica do Banco Central, iniciada em 2011.

Segundo os pesquisadores Lucilio Alves e Geraldo Barros, o agravamento da situação financeira do campo não pode ser explicado apenas por um possível excesso de endividamento em relação à renda do setor. O estudo aponta que o aumento do custo das dívidas, as mudanças nas fontes de financiamento e a perda de rentabilidade em determinadas atividades contribuíram para o cenário.

Crédito a taxas de mercado amplia pressão

Uma das principais mudanças identificadas pelo levantamento foi o crescimento da participação do crédito rural contratado a taxas de mercado. Em 2013, essas operações representavam 5% das contratações. Em 2025, a proporção chegou a 40%.

A inadimplência é significativamente maior nesse segmento. Em agosto deste ano, o índice alcançou 17,6% nas operações a taxas de mercado, enquanto nas linhas com juros controlados ficou em 3,8%.

Embora respondessem por aproximadamente 43% do saldo de crédito rural destinado às pessoas físicas, as operações a taxas de mercado concentravam cerca de 77% do total em atraso.

Perda de rentabilidade afeta principalmente os grãos

A deterioração financeira dos produtores também está relacionada à redução das margens de rentabilidade. Entre 2021 e 2025, os preços reais dos grãos recuaram 28%, enquanto os preços da pecuária tiveram alta de 12%.

No mesmo intervalo, a renda do ramo agrícola caiu de R$ 599 bilhões para R$ 539 bilhões, em valores corrigidos pela inflação. Já a renda da pecuária avançou de R$ 270 bilhões para R$ 331 bilhões.

Os custos dos fertilizantes também ampliaram a pressão sobre os produtores de grãos. Em 2025, foram necessárias, em média, 29,1 sacas de soja para adquirir uma tonelada de fosfato diamônico (DAP). Entre 2010 e 2019, a média era de 16,7 sacas.

As diferenças regionais também aparecem nos índices de inadimplência. Goiás registrou percentual de 8,8%, seguido por Mato Grosso do Sul, com 7,4%, e Mato Grosso, com 6,3%. No Maranhão e no Tocantins, os índices ultrapassaram 15%.

No Rio Grande do Sul, a situação está mais concentrada em operações prorrogadas e renegociadas, cenário que também reflete os impactos das enchentes de 2024.

Carteira problemática chega a R$ 205 bilhões

O levantamento aponta que a dimensão das dificuldades financeiras vai além das parcelas vencidas há mais de 90 dias. Em agosto de 2026, a carteira problemática do crédito rural somava R$ 205 bilhões, equivalente a 23,8% da carteira ativa, de R$ 862,7 bilhões.

O montante reúne R$ 105 bilhões em dívidas renegociadas, R$ 31 bilhões em operações prorrogadas, R$ 48,5 bilhões em inadimplência e R$ 21 bilhões em parcelas em atraso. Os números indicam que uma parcela expressiva do crédito já passou por algum tipo de reorganização para evitar o agravamento dos problemas financeiros.

A crise também alcança outros segmentos da cadeia do agronegócio. De acordo com levantamento do Núcleo de Estudos em Operações e Transformações do Agronegócio (NEOT) citado na pesquisa, foram registrados 517 pedidos de recuperação judicial no setor durante o primeiro trimestre de 2026. Desse total, 212 foram apresentados por empresas, incluindo revendas de insumos, agroindústrias, usinas e companhias de logística e armazenagem.

Renegociação de dívidas ainda tem alcance restrito

A Medida Provisória 1.376/2026, criada para facilitar a renegociação de dívidas rurais, havia alcançado R$ 5,98 bilhões até 5 de outubro. O valor corresponde a aproximadamente 5% dos R$ 120 bilhões estimados inicialmente pelo governo, segundo os pesquisadores do Cepea.

A renegociação de dívidas de investimento teve participação ainda menor: apenas R$ 79 milhões foram destinados a essa modalidade, equivalente a 1,3% do total contratado.

Para os pesquisadores, esse dado é relevante porque parte do endividamento está relacionada a investimentos realizados entre 2020 e 2022, período em que as margens do agronegócio eram mais elevadas.

O estudo conclui que uma resposta à crise não deve necessariamente envolver o alongamento generalizado das dívidas. A avaliação, segundo os autores, precisa diferenciar produtores que enfrentam dificuldades temporárias de caixa daqueles cuja capacidade de geração de renda já não é suficiente para sustentar o volume de compromissos financeiros.

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