Política

Rubens Barbosa defende planejamento estratégico de longo prazo para o Brasil

Ex-embaixador afirma que o país precisa de uma equipe técnica no governo e de políticas voltadas à competitividade, à infraestrutura e aos desafios internacionais

O Brasil precisa estabelecer uma estratégia de médio e longo prazo para enfrentar um cenário internacional cada vez mais complexo e ampliar sua capacidade de crescimento. A avaliação é do ex-embaixador brasileiro em Londres e Washington, Rubens Barbosa, que considera a escolha dos ministros um dos pontos decisivos para o próximo governo.

Em entrevista ao programa WW Especial, da CNN Brasil, Barbosa afirmou que o país enfrenta há cerca de duas décadas uma ausência de planejamento estratégico, situação que, segundo ele, contribui para um desempenho econômico abaixo do potencial brasileiro.

“Eu acho que vai ser fundamental para o futuro governo a composição ministerial. Se não houver um ministério minimamente técnico que entenda dificuldades, se for um ministério político para acomodar A, B ou C, vai ser muito difícil, porque tem que ter uma decisão política da Presidência da República para uma inteligência estratégica com uma visão de médio e longo prazo”, declarou.

Para o ex-diplomata, o Brasil tem condições de alcançar um crescimento econômico superior aos índices registrados nos últimos anos.

“Não é possível mais o Brasil viver como nós vivemos nesses últimos 20 anos, sem nenhuma previsão de médio e longo prazo, sem nenhuma visão estratégica, e o Brasil crescendo, apesar de tudo, com um mínimo de crescimento, 1%, 2%, a gente tem uma capacidade de crescimento muito maior”, afirmou.

Diagnósticos precisam se transformar em ações

Barbosa avalia que o país já dispõe de diagnósticos sobre áreas estratégicas, como a transição energética e a expansão do agronegócio. O desafio, segundo ele, é transformar essas análises em medidas concretas para proteger e fortalecer os interesses nacionais.

“O diagnóstico sobre a transição energética, sobre o crescimento do agro, isso já está feito. Nós precisamos de soluções, aplicação de medidas concretas para defender o interesse da gente”, disse.

O ex-embaixador também defendeu que as decisões de governo priorizem o interesse nacional, em vez de disputas ideológicas ou partidárias.

“Não podemos ficar pensando em ideologia, em partido, tem que pensar no interesse do país. Eu acho que chegou o momento agora, é uma encruzilhada”, pontuou.

Logística e fertilizantes estão entre os gargalos

Entre os desafios estruturais do Brasil, Barbosa destacou a infraestrutura logística. Apesar do volume expressivo do comércio exterior, o país ainda enfrenta dificuldades relacionadas ao transporte de cargas, às ferrovias, às rodovias e ao acesso aos portos.

“Você tem um comércio exterior de meio trilhão de dólares e não tem o porto, não tem estrada de ferro, não tem estrada de rodas, não tem acesso aos portos, os portos todos no Brasil estão com problemas”, afirmou.

Na avaliação do ex-embaixador, questões que afetam diretamente a economia, a geração de empregos, a renda e a atividade empresarial acabam ficando em segundo plano no debate político.

“São coisas concretas que a gente deixa de lado nessa discussão política, dos partidos, da emenda, coisas que afetam a economia, afetam os interesses concretos de emprego, de renda, das empresas”, declarou.

Barbosa também citou a dependência brasileira de fertilizantes importados como exemplo de falta de planejamento. Segundo ele, a vulnerabilidade ficou evidente após o início da guerra na Ucrânia, quando o país constatou que 95% dos fertilizantes utilizados no agronegócio eram importados.

“Como é que pode alguém imaginar que o agro, que é o principal motor da economia brasileira, quando estoura a guerra da Ucrânia, a gente descobre que 95% dos fertilizantes é importado. Quer dizer, isso é uma falta de previdência do governo e do setor privado”, criticou.

Ao voltar a tratar da formação da equipe ministerial, o ex-embaixador reforçou que a presença de profissionais com conhecimento técnico será necessária para definir prioridades e orientar as decisões do governo.

“Vai ser muito difícil tomar um rumo, porque você não sabe para onde você está indo”, concluiu.

O WW Especial, apresentado por William Waack, é exibido aos domingos, às 22h, nas plataformas da CNN Brasil.

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