Renda extra ganha espaço entre brasileiros diante das mudanças no mercado de trabalho
Trabalho por aplicativos, vendas pela internet e outras atividades passaram a integrar a rotina de milhões de brasileiros em busca de novas fontes de renda

A busca por uma segunda fonte de renda vem modificando a rotina profissional de parte dos brasileiros. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que cerca de 2 milhões de pessoas trabalharam por meio de aplicativos ou plataformas digitais em 2025, considerando tanto a atividade principal quanto ocupações secundárias.
O número corresponde a 1,9% da população ocupada do país. A pesquisa divulgada em setembro de 2026 ampliou a análise sobre o trabalho realizado por plataformas e também passou a investigar atividades relacionadas ao comércio eletrônico.
Os dados mostram que o trabalho por aplicativos já não está restrito a quem utiliza esse modelo como principal ocupação. Para milhares de pessoas, as plataformas também passaram a representar uma maneira de complementar o orçamento ou diversificar as fontes de renda.
Transporte de passageiros concentra maior número
Entre os cerca de 2 milhões de trabalhadores que utilizaram plataformas digitais em 2025, aproximadamente 1,8 milhão tinham essa atividade como ocupação principal. Outros 182 mil utilizavam os aplicativos como atividade secundária, enquanto 28 mil combinavam o trabalho por plataformas nas duas situações.
O transporte de passageiros reunia 1,2 milhão de trabalhadores, o equivalente a 58,9% do total. Na sequência estavam os aplicativos de entrega de alimentos e produtos, utilizados por 585 mil pessoas, e as plataformas de serviços gerais ou profissionais, com 313 mil trabalhadores.
O número de entregadores também aumentou. Entre 2024 e 2025, houve crescimento de 18,6%. Considerando apenas quem tinha a atividade como principal ocupação, o contingente passou de 274 mil para 325 mil pessoas.
Flexibilidade está entre os principais motivos
A pesquisa do IBGE também procurou identificar por que os trabalhadores recorrem às plataformas.
Entre aqueles que tinham o trabalho por aplicativo como principal atividade, 26,8% apontaram a flexibilidade como principal motivo. Outros 24,6% afirmaram que não haviam conseguido encontrar outra ocupação, enquanto 20,8% disseram considerar o rendimento superior ao de outras alternativas disponíveis.
Já o complemento de renda foi apontado como principal motivo por 16,6% dos entrevistados.
Os números mostram que o trabalho por plataformas atende a diferentes necessidades. Para alguns, representa uma atividade principal; para outros, funciona como complemento de uma renda já existente.
Mais horas trabalhadas não significam maior rendimento por hora
A comparação dos rendimentos também apresenta diferenças quando a jornada de trabalho é considerada.
Em 2025, o rendimento médio mensal dos trabalhadores plataformizados foi de R$ 3.147, praticamente o mesmo valor registrado entre os trabalhadores não plataformizados do setor privado, de R$ 3.148.
A jornada, entretanto, era maior entre os trabalhadores de plataformas. A média foi de 44,7 horas semanais, contra 39,3 horas entre os demais trabalhadores do setor privado.
Com isso, o rendimento médio por hora ficou em R$ 16,20 entre os plataformizados e R$ 18,40 entre os não plataformizados.
No caso de atividades como transporte e entrega, também precisam ser considerados gastos com combustível, manutenção, equipamentos, taxas e deslocamentos. Esses custos podem reduzir o valor efetivamente obtido pelo trabalhador.
Informalidade é maior entre trabalhadores de plataformas
Outro dado levantado pelo IBGE é a elevada taxa de informalidade nesse segmento.
Em 2025, 72,1% dos trabalhadores por aplicativos estavam na informalidade. Entre os trabalhadores não plataformizados do setor privado, o percentual era de 42,7%.
A diferença também aparece na contribuição previdenciária. Apenas 34% dos trabalhadores plataformizados contribuíam para algum instituto oficial de previdência, enquanto o índice entre os não plataformizados chegava a 63%.
Os números colocam a proteção previdenciária entre os aspectos que precisam ser considerados por quem transforma atividades autônomas em fonte de renda.
Vendas pela internet entram no levantamento
A pesquisa também passou a observar trabalhadores ligados às plataformas de comércio eletrônico.
Nesse grupo, os comerciantes plataformizados apresentaram rendimento médio mensal de R$ 4.932, enquanto os comerciantes que não utilizavam plataformas registraram R$ 3.415.
A diferença foi de 44,4%. O levantamento aponta ainda que 31,3% dos comerciantes plataformizados realizavam suas vendas exclusivamente por meio de plataformas de comércio eletrônico.
Com isso, a internet passou a desempenhar não apenas o papel de divulgação dos produtos, mas também de ferramenta utilizada diretamente na realização das vendas.
Goiás também vive transformação no mercado de trabalho
Em Goiás, a busca por novas fontes de renda ocorre em um mercado que reúne atividades tradicionais, como agropecuária e indústria, além de comércio, serviços, logística e tecnologia.
Os dados do emprego formal também apresentam oscilações ao longo do ano. Em maio de 2026, o estado registrou saldo negativo de 2.742 vagas formais no Novo Caged, enquanto o Brasil abriu 72.960 postos de trabalho no mesmo período.
Ao mesmo tempo, os municípios continuam registrando procura por trabalhadores. Em Aparecida de Goiânia, o sistema municipal de emprego chegou a contabilizar 2.325 vagas disponíveis em uma única semana, conforme os dados apresentados no levantamento.
Renda complementar exige planejamento
Os números do IBGE mostram que não há uma única razão para o crescimento do trabalho por plataformas. Flexibilidade, dificuldade de encontrar emprego, expectativa de rendimento e necessidade de complementar o orçamento aparecem entre os principais fatores.
Para quem busca uma segunda fonte de renda, o valor recebido é apenas um dos elementos a serem considerados. Custos operacionais, tempo dedicado à atividade e contribuição previdenciária também interferem no resultado financeiro.
A expansão das plataformas digitais revela, assim, uma mudança na forma como parte dos brasileiros organiza o trabalho e o orçamento. Em vez de depender exclusivamente de uma ocupação, cresce o número de pessoas que combinam diferentes atividades para compor a renda mensal.




