Cultura

Cavalhadas de Corumbá de Goiás devem reunir mais de 15 mil pessoas, de 4 a 6 de setembro

O espetáculo tradicional ganha cada vez mais admiradores que vêem no evento o respeito a herança cultural secular da cidade, que oferece um roteiro de história, cultura e aventura para o próximo feriado

Fitas coloridas, espelhos e lantejoulas lançam muito brilho e beleza sobre as capas que cobrem reis, cavaleiros e seus cavalos nas tradicionais Cavalhadas em Corumbá de Goiás. Aberto ao público, neste ano, o evento acontecerá entre os dias 4 e 6 de setembro e deve reunir mais de 15 mil turistas, segundo a Associação de Cultura e Defesa do Patrimônio Histórico do município. O evento acontecerá no Campo das Cavalhadas Rei Hastímphilo Cesas Curado Fleury, no Bairro 9 de Junho, das 15 às 18h. 

Encenada na cidade de Corumbá desde 1752,  as Cavalhadas é uma encenação épica que remonta a luta entre Mouros e Cristãos, na Idade Média. 

São 12 cavaleiros do lado dos mouros e 12 do lado dos cristãos – liderados pelos reis de ambos – travam a luta entre si com cavalos, espadas, lanças a garruchas. Com balas de festim, atiradas ao solo, para darem o efeito sonoro peculiar da guerra. 

O evento reúne gerações de corumbaenses que interpretam a batalha e passam a tradição dos festejos entre famílias e se preparam o ano todo para representar a luta.

“As Cavalhadas em Corumbá envolvem muito a comunidade local porque têm forte apelo emotivo e tradicional. São vivências passadas entre gerações, onde famílias inteiras de descendentes das antigos cavaleiros; desde as suas origens medievais, participam”, conta o historiador Ramir Curado, autor de vários livros sobre as origens populacionais e históricas de Corumbá. 

Os  24 cavalos pertencem a cada cavaleiro e também são treinados para trotarem no ritmo das canções tocadas pela tradicional Banda de Música 13 de Maio, que participa da tradição há mais de 135 anos.

Costureiras, cozinheiras, ajudantes e a população local atuam com recursos próprios para organizar o espaço da apresentação, as refeições e  os ensaios dos cavaleiros.

Ramir destaca que as Cavalhadas reúnem folia, artesanato, gastronomia  e saberes passados entre várias gerações desde as primeiras festas ocorridas no século XVIII, quando a cidade ainda era um simples arraial de mineradores fundado pelo bandeirante paulista de Jacareí, Diogo Pires Moreira. 

A emoção é um componente que flui com muito impulso nas apresentações. “Os cavaleiros realmente vivem a batalha. Na arquibancada e nos camarotes, muitos se comovem, vibram, durante as cenas. O evento envolve muita paixão”, diz Ramir.

Na vivência do historiador, cada participante exerce de forma legítima, a atividade cultural que é passada de pai para filho, ou de tio para sobrinho. Além do que, o cargo de cada membro é vitalício. Dada a importância do que representa para o cotidiano histórico, cultural e artístico de Corumbá.

Os Reis 

Atualmente, quem interpreta o Rei Mouro é o pecuarista José Quirino Gouveia de Moraes, 70, também conhecido como Juca. Ele participa desde muito jovem, aos 22 anos. “A nossa apresentação é feita com espontaneidade. Pagamos as despesas do evento entre nós mesmos. A emoção é incrível. Toda vez que entro em campo  sinto mais a força e a responsabilidade da minha encenação. As Cavalhadas são a minha vida, a minha história”, diz o Rei que terá as filhas como “mascaradas”, que também atuarão nos festejos, este ano.     

Conforme  Ramir Curado, José Quirino Gouveia de Moraes, é o cavaleiro que participou do maior número de cavalhadas em Corumbá, sendo que em 2026 ele completará quarenta e cinco cavalhadas corridas a partir de 1980, quando tomou parte, como soldado mouro, no retorno desse espetáculo após quase um quarto de século de paralisação em Corumbá. Descendente do almirante português Pedro Álvares Cabral, que antes do falecimento do seu irmão mais velho João Fernandes Cabral, assinava Pedro Álvares de Gouveia, Juca descende, através desse seu ancestral que em 1500 tomou posse das terras do Brasil em nome de El rei de Portugal, do imperador Carlos Magno, o mesmo que José Quirino combate no papel de rei dos mouros nas cavalhadas de Corumbá.

Já o Rei Cristão é protagonizado por Eudes Soares Cardoso, que é secretário de Finanças da Prefeitura de Corumbá de Goiás. Ele atua nas Cavalhadas desde 1993, onde entrou como sétimo soldado cristão, perpetuando a tradição da família. 

De acordo com Ramir Curado, Eudes é parente distante de diversos reis e cavaleiros dos séculos passados nas cavalhadas corumbaenses. E, pelo lado Soares, descende do bandeirante Fernão Dias Paes Leme, o “caçador de esmeraldas”. Através desse sertanista que ajudou a ampliar as fronteiras do Brasil, Eudes também é descendente do imperador cristão Carlos Magno, que ele representa como rei cristão nas cavalhadas de Corumbá. Tornou-se embaixador Cristão em 2014, em Corumbá e, passou a ocupar o posto de rei dos cristãos em 2019. 

“Desde pequeno vivo essa tradição. Eu não tenho palavras para representar o que sinto quando entro na arena. É uma alegria muito intensa. Esse momento é o mais precioso que compartilhamos entre nós, corumbaenses. É a nossa tradição”, disse, Eudes Soares Cardoso, o Rei Cristão. 

Programação

O evento acontece das 15h às 18h, com entrada franca, no Campo das Cavalhadas. O espetáculo terá toda uma infraestrutura montada com arquibancadas, arena de exibição, barracas de lanches e comidas típicas, além de banheiros químicos.

Ao longo dos três dias, são encenados momentos distintos da batalha e, ao terceiro dia, a exibição contempla a vitória dos Cristãos com o batismo e a conversão dos mouros ao cristianismo.     

Nos intervalos das apresentações, há a participação especial dos mascarados, que circulam e entre a plateia e divertem a todos com exibições de pantomima, que são brincadeiras lúdicas com gestos. “Eles arrancam risadas das crianças e são muito ativos durante as animações”, diz José Quirino.

Qualquer pessoa pode participar como mascarado, mas as inscrições devem ser feitas com  antecedência de uma semana antes do início das Cavalhadas, junto à Secretaria de Turismo da Cidade.

História e aventura

Além de apreciar a tradicionais Cavalhadas, visitantes podem conhecer mais sobre a cidade histórica, fundada em 1752, no auge do ciclo do ouro.

Corumbá de Goiás preserva um Centro Histórico tombado pelo IPHAN em 2004, caracterizado pelo traçado urbano irregular que se adapta às colinas e ao leito do Rio Corumbá. 

Sua arquitetura colonial traz a marca das técnicas construtivas do século XVIII, com edificações em adobe, taipa de pilão e estrutura em pau-a-pique. 

O passeio a pé pelas ruas de pedra revela marcos como a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Penha de França, edificação que deu origem ao povoado, e o antigo Cine Esmeralda. 

O conjunto arquitetônico pode ser explorado facilmente em uma caminhada que combina a observação dos casarões preservados com a gastronomia e o artesanato local. 

Além disso, a grande vantagem da região é a facilidade de integrar essa imersão histórica a passeios de ecoturismo. Uma das atrações é o Salto Corumbá,  maior Parque Ecológico do cerrado goiano, que abriga a maior cachoeira de toda Serra dos Pirineus – chamada de Salto de Corumbá, que dá nome ao parque – com uma queda de 50 metros de altura. Vista ao longe, sua beleza já atraiu destaque na imprensa internacional – foi capa da revista National Geografic. 

Aberto a day use, camping ou  hospedagem, o local abriga  mais seis cachoeiras do parque:  Cachoeira do Poço Rico, Cachoeira do Ouro, Cachoeira da Gruta e as três Cachoeiras da Gruta.  Oferece restaurante, piscinas, bares, lanchonetes, banheiros e vestiários, além de atividades como passeio a cavalo, tiirolesa, arvorismo e  boia cross. 

SERVIÇO

  • Cavalhadas de Corumbá de GoiásData:  4 a 6 de julho
  • Horário: 15h às 18h
  • Local: Av. Nicodemos, Bairro 9 de julho
  • EVENTO GRATUITO
  • Maiores informações:  (62) 99218-5856. 

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