Emergência Radiotiva: O que é real e o que é ficção na série Netflix
Entenda o que realmente aconteceu após césio-137 se espalhar por Goiânia em 1987

Lançamento da Netflix nesta semana, a minissérie nacional Emergência Radioativa se baseia em uma história real que aconteceu em setembro de 1987, recontando os eventos do desastre com o césio-137 em Goiânia. O desastre radiológico ocorreu apenas um ano após o acidente de Chernobyl, na antiga União Soviética.
Tudo começou quando dois catadores de materiais recicláveis, Wagner Pereira e Roberto Alves, entraram em uma clínica de radioterapia que estava abandonada e removeram a parte superior de uma máquina de tratamento de câncer. Eles levaram o equipamento para casa e conseguiram abrir uma cápsula de chumbo que guardava 19 gramas de césio-137, um elemento altamente radioativo.
A substância, que brilhava no escuro com uma cor azulada, atraiu a curiosidade de moradores locais. O material passou por várias mãos e foi vendido para o dono de um ferro-velho, espalhando a contaminação por diversos pontos da capital goiana. Na época, as vítimas apresentaram sintomas como vômitos, tontura e diarreia, que foram inicialmente confundidos com intoxicação alimentar pelos médicos.
As fotos reais compartilhadas neste texto estão no livro “37 anos – Césio-137, A História do Acidente Radioativo em Goiânia”, publicado pelo governo de Goiás em 2024. Abaixo, uma imagem antigo do ferro-velho, que precisou ser demolido:

Para conter a crise, as autoridades precisaram isolar áreas e realizar exames em mais de 110 mil pessoas em um campo de futebol, sendo que 249 delas tinham níveis significativos de material radioativo em seus corpos.
Centenas de pessoas com níveis leves de contaminação tiveram de permanecer em abrigos especiais. Sueli de Moraes, que hoje é vice-presidente da associação de vítimas, passou três meses em um deles. Em entrevista de 2018 à BBC Brasil, ela relembrou que era preciso tomar banho com água, vinagre e sabão de coco, além de trocar de roupa a cada meia hora.

O balanço oficial registrou quatro mortes imediatas, embora os créditos de Emergência Radioativa Netflix mencionem 16 vítimas fatais ao longo dos anos. O processo de limpeza gerou dezenas de casas demolidas e toneladas de lixo radioativo que precisaram ser confinadas em recipientes de concreto. Esse é considerado o maior acidente radiológico do mundo fora de uma usina nuclear.
Atualmente, cerca de 600 pessoas recebem pensões do governo devido aos danos sofridos. Existe um movimento político recente para aliviar a situação financeira desses sobreviventes: um projeto de lei enviado pelo governo estadual de Goiás à Assembleia Legislativa propõe um reajuste de 70% nos valores dos auxílios vitais. O valor passa de R$ 1.908 para R$ 3.242 para os afetados por radiação superior a 100 Doses Absorvidas de Radiação (RAD) e de R$ 954 para R$ 1.621 para os demais acidentados.

O que é real e o que é ficção em Emergência Radiotiva
Embora seja inspirada em acontecimentos reais, a série Emergência Radioativa utiliza diversos recursos para aumentar o impacto dramático.
Um dos pontos de maior divergência entre a obra e a realidade é a representação dos profissionais de saúde e segurança. Enquanto na vida real dezenas de especialistas trabalharam na contenção da tragédia, a produção optou por concentrar essas ações em um núcleo reduzido de personagens. O protagonista, interpretado por Johnny Massaro, funciona como uma síntese que representa o esforço coletivo de diversos cientistas da época. Ele não existiu de verdade.
A dramatização também se estende aos personagens que representam as vítimas. A série apresenta a figura de Celeste, inspirada em Leide das Neves, a criança que morreu após ingerir partículas do pó radioativo durante uma refeição. Os produtores afirmam que o foco da narrativa foi buscar o lado humano e emocional das pessoas envolvidas, o que resultou em uma reordenação cronológica de alguns eventos.

Outra escolha da produção que gerou discussões foi a locação das filmagens. Apesar de a história se passar originalmente em Goiânia, a Netflix gravou as cenas em cidades da Grande São Paulo, como Osasco e Santo André. Essa decisão foi alvo de críticas por parte do Conselho Municipal de Cultura de Goiânia, que questionou a falta de fidelidade geográfica e a ausência de investimento na região onde o acidente de fato ocorreu.
Além disso, sobreviventes notaram mudanças visuais em Emergência Radioativa, como o brilho do césio-137, que na tela parece ser mais intenso do que o relatado por quem viu o material original.
Aterro em Abadia de Goiás

A maior parte das seis toneladas de materiais contaminados foi enterrada em um depósito em Abadia de Goiás, a 25 quilômetros de Goiânia, onde devem permanecer por 300 anos.
Algumas amostras, porém, foram preservadas para pesquisa no Ipen e no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, ligado à Universidade de São Paulo (USP).




