RELAÇÕES INTERNACIONAIS

Abin alerta para risco de interferência dos EUA nas eleições brasileiras

Relatório reservado enviado ao governo e ao TSE aponta escalada da pressão norte-americana sobre o Brasil em meio a disputas comerciais e diplomáticas

TRUMP (Foto: reprodução)

A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) classificou como de “nível de criticidade” o risco de influência ou interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras de 2026. A avaliação consta de um relatório reservado encaminhado, no fim de agosto, à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça. As informações foram divulgadas inicialmente pela imprensa e posteriormente confirmadas pela TV Brasil.

Segundo o documento, há uma tendência de escalada da pressão exercida pelo governo do presidente Donald Trump sobre o Brasil. O relatório também relaciona essa atuação a uma estratégia mais ampla dos Estados Unidos para ampliar sua influência na América Latina e reduzir a presença de países considerados rivais, como a China, em setores estratégicos da região.

A avaliação da Abin ocorre em um momento de aumento das tensões entre Brasília e Washington, envolvendo tarifas comerciais, sanções, decisões judiciais brasileiras e discussões relacionadas às eleições de outubro.

Pressão sobre o Brasil aumentou nos últimos meses

O relatório reservado aponta uma intensificação das medidas adotadas pelos Estados Unidos em relação ao Brasil. Entre os episódios que marcaram esse período estão a elevação de tarifas sobre produtos brasileiros e medidas direcionadas a autoridades e instituições brasileiras.

O governo norte-americano também apresentou exigências relacionadas a questões políticas e judiciais brasileiras. Segundo a TV Brasil, uma lista encaminhada por Trump ao governo brasileiro em 2025 incluía pedidos relacionados à realização de eleições consideradas livres e justas e à participação de dissidentes políticos.

A relação entre os dois países passou, dessa forma, a envolver simultaneamente questões comerciais, diplomáticas, judiciais e eleitorais.

Tarifas ampliaram tensão comercial

A política tarifária adotada pelo governo Trump tornou-se um dos principais pontos de atrito entre os dois países.

As medidas norte-americanas atingiram diferentes produtos brasileiros e foram justificadas pelo governo dos EUA com argumentos relacionados às relações comerciais e a outras questões consideradas de interesse nacional norte-americano.

Em setembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Brasil continuaria priorizando as negociações enquanto as tratativas comerciais permanecessem em andamento. Segundo declarações recentes do presidente, eventuais medidas de reciprocidade poderiam ser adotadas caso as negociações fracassem.

Sanções contra autoridades brasileiras

Outro episódio de forte repercussão ocorreu com a aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes pelo governo dos Estados Unidos.

A medida ocorreu em meio às críticas de Washington às decisões do Judiciário brasileiro relacionadas às investigações envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro e outros investigados.

Posteriormente, as sanções contra Moraes e sua esposa, Viviane Barci de Moraes, foram retiradas. O tema, contudo, continuou sendo utilizado como parte da pressão política entre os dois países.

Mais recentemente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro voltou a defender, em Washington, a retomada das sanções contra Moraes. A movimentação foi registrada pela Reuters em setembro.

Relação também envolve redes sociais e decisões judiciais

As decisões do Judiciário brasileiro envolvendo plataformas digitais estão entre os assuntos que contribuíram para o aumento das tensões.

Empresas e plataformas com atuação nos Estados Unidos questionaram medidas determinadas pela Justiça brasileira, enquanto autoridades norte-americanas passaram a criticar determinadas decisões relacionadas à atuação das redes sociais no país.

O governo brasileiro, por sua vez, sustenta que as medidas judiciais estão relacionadas ao cumprimento da legislação nacional e à proteção do processo democrático.

Abin avalia possível influência no processo eleitoral

O ponto central do relatório da Abin é a possibilidade de que a pressão externa ultrapasse questões comerciais e diplomáticas e alcance o processo eleitoral brasileiro.

A eleição de 2026 está marcada para 4 de outubro, quando os eleitores escolherão presidente, governadores, senadores e deputados. O segundo turno, quando necessário, ocorrerá em 25 de outubro.

O documento da inteligência brasileira não significa que tenha sido identificada uma interferência efetiva nas eleições, mas registra uma avaliação de risco sobre a possibilidade de influência externa.

Essa distinção é relevante porque o relatório trabalha com cenário de risco e monitoramento, e não com a confirmação de uma operação estrangeira para alterar o resultado eleitoral.

Governo brasileiro mantém negociação com Washington

Apesar das divergências, Brasil e Estados Unidos continuam mantendo canais de diálogo diplomático e comercial.

Lula tem afirmado que pretende tratar diretamente com Trump de questões envolvendo as tarifas e a relação bilateral. O presidente brasileiro também deverá abordar a questão da não interferência nas eleições durante sua participação na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, em Nova York.

Os dois governos, portanto, mantêm simultaneamente negociações comerciais e divergências em temas políticos e diplomáticos.

Alerta ocorre às vésperas das eleições

O relatório da Abin foi produzido a poucas semanas do primeiro turno e em um contexto de maior tensão entre os governos brasileiro e norte-americano.

A avaliação coloca a possibilidade de influência estrangeira entre os fatores acompanhados pelas instituições brasileiras durante o processo eleitoral. Até o momento, o que está documentado publicamente é a existência do alerta da inteligência brasileira e das medidas adotadas pelos Estados Unidos em diferentes áreas; eventuais ações concretas de interferência eleitoral dependeriam de evidências específicas.

O cenário deverá ser acompanhado pelas autoridades brasileiras durante as próximas semanas, especialmente diante da proximidade da votação e da continuidade das disputas diplomáticas e comerciais entre os dois países.

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