Venezuelanas que vivem em Goiás relatam misto de alívio e medo após captura de Maduro
Venezuelanas que vivem em Goiás relatam misto de alívio e medo após captura de Maduro

Duas venezuelanas que recomeçaram a vida em Goiânia acompanham com apreensão os desdobramentos da operação militar dos Estados Unidos que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro, na madrugada de 3 de janeiro. Entre o alívio pela queda do regime e o medo pelo que virá, elas carregam histórias de superação, dificuldades e a dor de viver longe de casa em um momento decisivo para o futuro da Venezuela.
Carmen tinha 52 anos quando decidiu que não aguentava mais. Professora de história em Maracaibo, terceira maior cidade da Venezuela, ela viu o salário minguar até não valer quase nada. A hiperinflação destruiu o poder de compra. As prateleiras dos mercados ficaram vazias. Remédios para a pressão alta sumiam. A água faltava dias seguidos. A energia elétrica era interrompida sem aviso.
“Eu trabalhava o mês inteiro e não conseguia comprar nem uma caixa de leite”, conta Carmen, que hoje atende clientes na lanchonete de um supermercado em Goiânia. “Meu salário dava para comprar dois quilos de frango. Dois quilos. Como eu ia viver assim?”, questiona.
Em 2019, ela tomou a decisão mais difícil da vida: deixar a Venezuela. Vendeu o que tinha de valor, juntou algum dinheiro e partiu em um ônibus superlotado rumo a Boa Vista, em Roraima. A viagem durou três dias. Muitos passageiros choravam. Outros rezavam. Carmen tentava não pensar no que deixaria para trás. “Eu só pensava que precisava sobreviver. Meu país estava acabando e eu precisava sair antes que fosse tarde demais”, lembra. “Nunca imaginei que um dia ia ter que fugir da minha própria terra.”
A travessia foi penosa. Carmen passou duas semanas em um abrigo em Boa Vista, dividindo espaço com centenas de pessoas. Conseguiu se cadastrar no programa de interiorização do governo federal, que redistribui migrantes para outras cidades do país. Goiânia apareceu como destino. Ela aceitou sem pensar duas vezes.
Chegou à capital goiana em outubro de 2019 sem conhecer ninguém, sem emprego e com R$ 200 no bolso. Os primeiros meses foram de muita dificuldade. Carmen dormia em um albergue e buscava trabalho todos os dias. A língua, embora parecida, era um obstáculo. O sotaque denunciava sua origem e, às vezes, percebia olhares de desconfiança. “No começo, eu sentia que as pessoas tinham medo de mim. Como se eu fosse tirar o emprego delas ou fosse fazer alguma coisa errada”, diz. “Mas eu só queria trabalhar. Só isso.”
A oportunidade veio quando ela foi contratada pela lanchonete. Começou ajudando na cozinha, depois passou para o atendimento. Hoje, cinco anos depois, Carmen fala português quase sem sotaque e tem uma rotina estável. Mora em uma quitinete e manda dinheiro mensalmente para a mãe, que ficou na Venezuela.
“Aqui eu tenho o que não tinha mais lá: dignidade. Eu trabalho, recebo no final do mês, compro comida, pago minhas contas. Parece simples, mas para mim é tudo”, afirma. “Claro que tenho saudade. Mas voltar agora é impossível. Lá não tem vida.”
Quando soube da operação militar americana que resultou na captura de Maduro, na madrugada do dia 3, Carmen ficou em choque. Explosões e o ruído de aeronaves militares sacudiram Caracas por volta das 2h. A operação envolveu mais de 150 aeronaves e comandos da Delta Force. Maduro e sua esposa foram capturados e levados para Nova York, onde enfrentam acusações de narcoterrorismo. “Eu não sei o que sentir. Por um lado, aquele homem destruiu meu país. Por outro, tenho medo do que vai acontecer agora”, diz. “Minha mãe está lá, sozinha. E se começar uma guerra? E se piorar?”
Maduro (Foto: reprodução)
Carmen acompanha as notícias pelo celular, ansiosa. Viu imagens das explosões, leu sobre os ataques militares, soube que Trump prometeu administrar a Venezuela por tempo indeterminado. “Eu queria sentir alegria, mas só sinto medo. Medo pela minha família, medo pelo meu povo”, confessa.
A juventude que busca recomeço
A história de Daniela é diferente, mas carrega dores parecidas. Ela tinha apenas 24 anos quando cruzou a fronteira, em 2021. Nascida em Caracas, Daniela estudou administração, mas nunca conseguiu trabalhar na área. A crise econômica destruiu as oportunidades para os jovens. Muitos dos seus amigos já haviam migrado para outros países.
“Eu via meus colegas indo embora, um atrás do outro. Para o Chile, Peru, Colômbia, Brasil. A Venezuela estava se esvaziando e eu sabia que se ficasse, não ia ter futuro”, conta a jovem, que hoje trabalha em um posto de combustível na região metropolitana de Goiânia.
Daniela fez a viagem com duas amigas. Saíram de Caracas de ônibus até Pacaraima, na fronteira com o Brasil. O trajeto durou quatro dias. Elas dormiam nos bancos, comiam pouco e dividiam os custos. Ao chegar, passaram pela documentação e foram encaminhadas para abrigos. “Foi muito assustador. A gente não sabia o que ia encontrar. Mas também não tínhamos escolha”, lembra. “Eu só pensava: ‘Preciso conseguir um emprego, preciso me virar’.”
Diferente de Carmen, Daniela não entrou no programa de interiorização. Ela e as amigas decidiram ir direto para Goiânia, onde já havia uma pequena comunidade de venezuelanos. Conseguiram caronas de caminhoneiros e chegaram à capital goiana com pouquíssimo dinheiro.
Os primeiros dias foram dramáticos. Dormiram na rodoviária, depois em um albergue. Daniela buscou trabalho de porta em porta, mas as negativas eram constantes. Sem experiência local, sem referências, muitos empregadores tinham receio de contratá-la. “Teve uma vez que o gerente de um supermercado me disse que não podia me contratar porque eu era estrangeira. Aquilo doeu muito. Eu só queria uma chance”, relata.
A chance veio quando ela foi contratada para trabalhar no posto de combustível. Começou na loja de conveniência, organizando prateleiras e atendendo clientes. Depois passou a trabalhar também como frentista. O salário é baixo, mas permite que ela pague aluguel dividido com outras venezuelanas e mande algum dinheiro para a família. “Eu trabalho de domingo a domingo, praticamente. É cansativo, mas eu agradeço por ter emprego”, diz. “Muita gente da minha idade ainda está lá, sem conseguir trabalhar, sem comida. Eu pelo menos estou viva e com dignidade.”
Daniela fala com saudade da família, dos amigos, da comida venezuelana. Mas reconhece que o Brasil lhe deu algo que a Venezuela não conseguia mais oferecer: perspectiva de futuro. Ela estuda português em um curso gratuito e sonha em fazer uma faculdade.
A notícia da captura de Maduro a deixou dividida. “Eu chorei quando soube. Não por ele, mas pelo que pode acontecer com meu país”, conta. “Maduro é um criminoso, todo mundo sabe. Mas agora? Quem vai governar? Os Estados Unidos vão ficar lá para sempre?”
Daniela teme que a situação se complique ainda mais. “Meus pais estão em Caracas. Eles me ligaram no sábado de madrugada, assustados com as explosões. Disseram que a luz caiu, que tinha helicóptero voando baixo”, relata. “Eu fiquei desesperada, sem saber o que fazer.”
A operação militar americana gerou reações divididas internacionalmente. Enquanto a Argentina comemorou, países como Brasil e China condenaram o uso da força. O secretário-geral da ONU expressou profunda preocupação e pediu respeito ao direito internacional.
Para Daniela, a ação traz mais incertezas que respostas. “Eu não sei se isso é bom ou ruim. Maduro tinha que sair, sim. Mas desse jeito? Com bombardeio? E agora, o que vai ser da gente?”, questiona. “Eu queria voltar para casa, mas só se um dia a Venezuela melhorar. Por enquanto, minha casa é aqui. Onde eu consigo viver”, afirma.
A solidão e a esperança
Carmen e Daniela são duas entre milhares de mulheres venezuelanas que recomeçaram a vida em Goiás. Elas enfrentam desafios diários: a saudade da família, a dificuldade com o idioma, o preconceito velado, a adaptação a uma cultura diferente. Agora, vivem também a angústia de não saber o que acontecerá com a Venezuela após a operação militar que capturou Maduro. Mas seguem em frente, com a força de quem não teve escolha senão ser forte.
Para Carmen, a maior dor é não poder abraçar a mãe. “Ela está velhinha, com 78 anos. Eu mando dinheiro, mas não é a mesma coisa. Queria poder cuidar dela”, diz, com os olhos marejados.
Daniela, por sua vez, sonha em trazer a família para o Brasil. “Meus pais ainda estão lá. Meu irmão mais novo está passando fome. Eu trabalho pensando que um dia vou poder ajudá-los a sair de lá”, conta.
As duas mulheres, separadas por quase 30 anos de idade, compartilham a mesma certeza: não há caminho de volta, pelo menos não agora. A Venezuela que conheceram não existe mais. E com os recentes acontecimentos, o futuro do país se tornou ainda mais incerto. O que resta é se agarrar à nova vida, por mais difícil que seja, e construir, dia após dia, um futuro possível em terra estrangeira.
“Eu não escolhi ser migrante. A vida me obrigou. Mas agora que estou aqui, vou lutar para ter uma vida digna”, resume Carmen. “Sobre a Venezuela, só Deus sabe o que vai acontecer. Eu só rezo pela minha família.”
Daniela completa: “A gente não desiste. Não podemos desistir. Mas agora, mais do que nunca, tenho certeza de que não posso voltar. Não sei nem se vai existir uma Venezuela para voltar.”
*Os nomes das entrevistadas foram alterados para proteger suas identidades. Ambas temem represálias e outras possíveis consequências.
Migração venezuelana
A migração de venezuelanos para o Brasil representa um dos movimentos populacionais mais significativos da história recente do país. Impulsionada pela grave crise econômica, política e humanitária que assola a Venezuela desde meados da década de 2010, essa onda migratória transformou o perfil demográfico de diversas regiões brasileiras, incluindo o estado de Goiás.
População venezuelana no Brasil
De acordo com o Censo Demográfico 2022 do IBGE, cerca de 1 milhão de estrangeiros ou brasileiros naturalizados viviam no Brasil em 2022. Deste total, os venezuelanos formavam o maior grupo estrangeiro no Brasil, em 2022, com 271,5 mil pessoas, ocupando lugar que antes era dos portugueses.
O crescimento foi exponencial. O número de venezuelanos residentes no Brasil subiu de 2.900, em 2010, para 271.500, em 2022, um aumento de aproximadamente 94 vezes. Este fenômeno reflete o agravamento da crise venezuelana, marcada por hiperinflação, desabastecimento de alimentos e medicamentos, e colapso de serviços básicos.
No quinquênio de 2017 a 2022, o principal fluxo migratório veio da Venezuela, com a chegada de 199,1 mil pessoas. Entre os cerca de um milhão de estrangeiros e naturalizados residindo no Brasil em 2022, 460 mil imigraram até 2012, 151 mil entre 2013 e 2017 e outros 399 mil entre 2018 e 2022, evidenciando que o fluxo mais recente é responsável pela maior parte das pessoas nascidas no exterior residindo no país.
Histórico da migração venezuelana em Goiás
Goiás tornou-se um dos destinos importantes no processo de interiorização dos migrantes venezuelanos, programa criado pelo governo federal para redistribuir a população que inicialmente se concentrava em Roraima.
Segundo dados do Sistema de Registro Migratório da Polícia Federal, atualizados em outubro de 2025, o total de imigrantes registrados no estado de Goiás foi de pouco mais de 26 mil. Destes, 10.703 são venezuelanos, o que fez com que Goiás se tornasse o 10º estado do Brasil que mais abriga venezuelanos.
Em dezembro de 2022, a Venezuela era o país com maior quantidade de cidadãos registrados em Goiás, com 3.194 pessoas, representando 22,8% de todos os estrangeiros registrados no estado. Em segundo lugar estava o Haiti, com 2.143, seguido por Portugal com 1.585 imigrantes.
Entre 2018 e 2022, Goiás foi o 13º estado brasileiro que mais registrou imigrantes internacionais, com 8.224 pessoas no período. Do total de estrangeiros registrados em Goiás entre 2018 e 2022, 39,1% vieram da Venezuela, seguidos pelo Haiti (19,3%) e Colômbia (12,1%).
O perfil predominante dos imigrantes registrados em Goiás no período indica que são majoritariamente homens na faixa etária entre 25 e 40 anos de idade.
Principais motivos da migração
A migração venezuelana é resultado direto da crise multifacetada que atinge o país desde meados de 2015. A queda nos preços do petróleo, principal produto de exportação venezuelano, desencadeou um colapso econômico sem precedentes na história recente da América Latina.
Os principais fatores que impulsionaram a saída de milhões de venezuelanos incluem a hiperinflação que tornou o salário insuficiente para necessidades básicas, o desabastecimento generalizado de alimentos e medicamentos, o colapso dos serviços públicos de saúde e educação, a falta crônica de água e energia elétrica, e a crescente instabilidade política e social.
Os migrantes venezuelanos buscam principalmente oportunidades de emprego, acesso a serviços de saúde e educação para os filhos. Muitos trabalhadores qualificados, como professores, médicos e engenheiros, viram-se obrigados a aceitar empregos em áreas diferentes de sua formação para garantir a sobrevivência.
Desafios e integração
A chegada de milhares de venezuelanos ao Brasil trouxe desafios significativos tanto para os migrantes quanto para as comunidades receptoras. Os venezuelanos enfrentam barreiras linguísticas, dificuldades para validar diplomas e certificações profissionais, preconceito e xenofobia em algumas situações, e a necessidade de adaptação a uma nova cultura e realidade social.
Por outro lado, contribuem para a economia local em setores que enfrentam escassez de mão de obra, como construção civil, agricultura e serviços. A presença venezuelana também ampliou a diversidade cultural em cidades goianas, com o surgimento de restaurantes, feiras e serviços voltados para a comunidade migrante.
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