Opinião

Vaidade, Frustração e Democracia Seletiva: o Paradoxo Trump

Por Humberto Juliano Gebrim Teixeira, colunista e analista político

Donald Trump gosta de se apresentar como um defensor intransigente da democracia e da liberdade. O problema é que, na prática, sua concepção de democracia parece funcionar apenas quando o resultado o favorece — e quando os aplausos estão garantidos. Fora disso, o discurso muda: a democracia passa a ser relativizada, instrumentalizada ou simplesmente descartada.

A construção de Trump como líder incontestável — o “grande homem” — exige reconhecimento permanente, aplauso constante e centralidade absoluta. Essa lógica é incompatível com a essência democrática, que pressupõe limites, alternância de poder e aceitação do contraditório. O resultado é um tipo de autoritarismo que não se apresenta como tal, mas que se esconde sob uma retórica de liberdade.

Esse traço voltou a aparecer em suas recentes declarações sobre a líder venezuelana Maria Corina Machado. Ao afirmar que ela não tem o respeito do povo da Venezuela, Trump não apenas erra: distorce os fatos. Maria Corina não é rejeitada pelo povo — é rejeitada pela ditadura. Quem a combate não é a sociedade venezuelana, mas o regime de Nicolás Maduro, justamente porque ela se tornou o principal símbolo de uma oposição real, com respaldo popular e legitimidade construída nas ruas.

Hoje, trata-se da liderança mais forte da oposição venezuelana, com apoio interno consistente e reconhecimento amplo entre os milhões de venezuelanos que vivem fora do país. Esse apoio não é retórico nem ocasional. É fruto de identificação política, resistência e esperança concreta de mudança. Negar isso não é análise — é desinformação.

A fala de Trump parece menos um erro de leitura e mais um incômodo mal disfarçado. Maria Corina incomoda porque não depende de padrinhos internacionais e não orbita em torno de lideranças globais. Construiu sua legitimidade por mérito próprio — algo que Trump, aparentemente, tem dificuldade em reconhecer quando não está no centro da narrativa.

O desconforto fica ainda mais evidente quando se observa sua obsessão pública pelo Prêmio Nobel da Paz. Ao sugerir que receber Maria Corina Machado e que seria “uma honra” receber o Nobel “dela”, Trump ultrapassa o limite do razoável. O Nobel não é transferível, não é simbólico nesse sentido e, muito menos, objeto de desejo pessoal. A declaração revela não apenas ignorância institucional, mas uma vaidade que beira o delírio.

Mais uma vez, o episódio fala menos sobre Maria Corina e mais sobre o próprio Trump. Tudo precisa girar em torno de sua figura. Tudo precisa, de algum modo, ser reescrito para colocá-lo no centro da história — inclusive as conquistas que não lhe pertencem.

É aí que aparece o verdadeiro paradoxo: para Trump, a democracia não é um valor coletivo — é um palco. Quando ele não é o protagonista, tenta diminuir o espetáculo. Sua régua de legitimidade não é o apoio popular nem a luta contra regimes autoritários, mas o quanto o outro ameaça sua própria centralidade política e simbólica.

Assim surge o perfil de um autoritarismo moderno: não o que fecha parlamentos, mas o que esvazia conceitos; não o que rasga constituições, mas o que subordina princípios a frustrações pessoais; não o que destrói a democracia de fora, mas o que a corrói por dentro.

Ao tentar minimizar Maria Corina Machado e ao tentar se projetar sobre uma conquista que não é sua, Trump não enfraquece a líder venezuelana nem a causa democrática. Enfraquece apenas o próprio discurso — e expõe que sua defesa da democracia é condicional, personalista e profundamente egocêntrica.

No fim, fica a pergunta incômoda, mas necessária: Trump e Maduro são tão diferentes assim — ou apenas versões distintas de uma mesma tentação autoritária?

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