A Praça do Rosário, as Calçadas e a Memória de Ipameri
Quando o espaço público deixa de ser problema e revela a identidade viva da cidade

Por Humberto Juliano Gebrim Teixeira, colunista e analista político
Ipameri sempre teve um jeito muito próprio de ocupar o chão.
Não é de hoje que o burburinho das noites se mistura com o desenho das calçadas, como se o cimento fosse uma extensão da nossa hospitalidade.
Quem viveu os tempos áureos da cidade sabe bem disso.
O Chaplin, o D’Angelas, a Pizzaria Elite, o Bar do Paquinha ou o Kantin Bar são nomes que ficaram gravados na memória não apenas pelo que serviam, mas pelo direito sagrado de sentar ao ar livre e ver a vida passar.
Naquela época, a calçada não era um espaço em disputa; era o quintal da cidade, um patrimônio cultural que integrava bares e restaurantes à dinâmica urbana sem que isso fosse tratado como um problema de ordem pública.
A Praça do Rosário, essa velha senhora que já viu de tudo, sempre acolheu esse movimento com naturalidade.
Onde hoje funciona a Eduarda Rocha, o tempo já testemunhou o movimento do Armazém-Bar, do Casarão Restaurante e de outros estabelecimentos que passaram por ali. A vida naquele ponto sempre pulsou entre mesas que convidavam o passante para um descanso.
Por isso, causa um estranho amargor notar que, de repente, o que sempre foi tradição virou alvo de denúncia.
O uso da calçada e de alguns cones para organizar o fluxo e proteger quem frequenta o local passou a ser questionado como se fosse uma afronta, ignorando que essa é a realidade de farmácias, supermercados e tantos outros pontos da cidade.
É curioso e um tanto triste perceber que o rigor de certos olhares parece se voltar mais aos lugares onde a cidade reencontrou seu movimento.
Ipameri é uma cidade onde as praças se transformam em jantinhas, onde as vendas de massas aos domingos ocupam as vias e onde o comércio respira o ar da rua.
Isso não faz mal à cidade.
Ao contrário: gera convivência, sensação de segurança e movimenta a economia local.
Quando uma denúncia isolada tenta transformar um costume consolidado desde a década de oitenta em uma infração grave, o que se percebe não é uma busca por ordem, mas um critério desigual que ignora a realidade ao redor.
A história de Ipameri foi escrita nas calçadas, entre um gole e outro de amizade, e não faz sentido tentar apagar esse traço da nossa identidade por causa de queixas que parecem ignorar a história e a própria realidade de quem vive e trabalha aqui.
A vida na Praça do Rosário sempre foi feita de encontros, e é doloroso ver que, agora, o que deveria ser celebração virou motivo de suspeita.
A Eduarda Rocha não está fazendo nada além de manter viva uma tradição, um jeito de ser da cidade.
E é justamente isso que parece incomodar: o fato de que a cidade está voltando a ser cidade





